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27 de Janeiro de 2022
2º Grau
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Detalhes da Jurisprudência
Órgão Julgador
1ª Turma
Julgamento
21 de Setembro de 2018
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Inteiro Teor

Acórdão: 0020621-02.2016.5.04.0202 (ROT)
Redator: LAIS HELENA JAEGER NICOTTI
Órgão julgador: 1ª Turma
Data: 21/09/2018
PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 4ª REGIÃO
Identificação

PROCESSO nº 0020621-02.2016.5.04.0202 (RO)
RECORRENTE: GOMERCINDO CABRAL FAGUNDES, MECASUL AUTO MECANICA SA
RECORRIDO: GOMERCINDO CABRAL FAGUNDES, MECASUL AUTO MECANICA SA
RELATOR: LAIS HELENA JAEGER NICOTTI

EMENTA

DOENÇA OCUPACIONAL. TENDINOPATIA NO OMBRO DIREITO. RESPONSABILIDADE CIVIL DA EMPREGADORA CONFIGURADA. Comprovada nos autos a relação concausal entre a patologia do reclamante e o labor por ele prestado, bem como o agir culposo da empresa, que não adotou medidas de prevenção recomendáveis para garantir um ambiente de trabalho sadio, resta configurado o dever de indenizar os danos morais e materiais advindos da doença ocupacional desenvolvida pelo empregado. Sentença mantida.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos.

ACORDAM os Magistrados integrantes da 1ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região: por unanimidade, NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO ORDINÁRIO DA RECLAMADA, Mecasul Auto Mecânica S/A. Por unanimidade, NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO ORDINÁRIO DO RECLAMANTE, Gomercindo Cabral Fagundes.

Intime-se.

Porto Alegre, 19 de setembro de 2018 (quarta-feira).

Cabeçalho do acórdão

Acórdão

RELATÓRIO

As partes, inconformadas com a sentença de procedência parcial (Id 4fbf105), proferida pela Juíza Ana Paula Keppeler Fraga, interpõem recursos ordinários.

A reclamada, mediante razões de recurso ordinário (Id 9c6188a), busca a reforma da decisão alegando a ausência de nexo causal entre a patologia e o trabalho. Fala em redução do valor arbitrado a título de indenização por danos morais e pretende a redução do valor arbitrado da título de honorários periciais.

O reclamante, através de recurso ordinário (Id 8930bd7), pretende a modificação da sentença, querendo a majoração do valor arbitrado a título de indenização por danos morais, percentual de pensionamento e de responsabilidade da reclamada.

Contra-arrazoado o recurso pela reclamada (Id d61be27) e pelo reclamante (Id f713a64), os autos são encaminhados a este Tribunal.

É o relatório.

FUNDAMENTAÇÃO

I - RECURSO DAS PARTES. Análise Conjunta. Matéria Comum

DOENÇA DO TRABALHO. NEXO CAUSAL. RESPONSABILIDADE DA RECLAMADA. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. HONORÁRIOS PERICIAIS

A Magistrada da origem reconheceu que as atividades desenvolvidas na reclamada contribuíram apenas para o agravamento da patologia que acomete o reclamante (concausa) e determinou o adimplemento de indenização por danos morais e materiais, nos seguintes termos (decisum, Id 4fbf105 - Pág. 6): "- indenização por danos morais no valor de R$ 5.000,00" e "- indenização por danos materiais no valor de R$ 15.000,00". Fixou, ainda, honorários periciais de R$ 1.200,00 para cada perito (médico e técnico).

As partes não se conformam com a decisão.

A reclamada, nas suas razões recursais para a reforma da decisão, argumenta pela ausência de nexo de causalidade entre a patologia e o trabalho. Advoga que o PCMSO e o PPRA comprovam que implementa normas de medicina e segurança do trabalho, não negligenciando no que se refere ao ambiente de trabalho. Acrescenta que o fato de não haver análise ergonômica jamais poderá ser decisivo para a conclusão de contribuição no agravamento da doença do trabalhador. Enfatiza que o autor estava apto ao trabalho quando da rescisão contratual e destaca que a doença no ombro se agravou após a ruptura do contrato de trabalho, tendo gozado de benefício previdenciário (espécie B 31), após quase 1 ano da data do rompimento do contrato, concluindo que a moléstia não possui relação com o trabalho. Afirma que cessada a exposição ao eventual agente etiológico, não haveria mais sintomas da doença e que, ocorrendo agravamento, como no caso, ou a causa não pode ser atribuída as funções desempenhadas na ré ou existem outras concausas atuando, tais como a idade avançada, alterações degenerativas, diabetes, dentre outros. Alude à confirmação pelo trabalhador quanto a realização de labor "por fora" da empresa, dizendo injusta a sua responsabilização. Enfatiza que o reclamante teve diversos outros empregos e defende que o perito fala apenas em nexo técnico, não estabelecendo nexo de causalidade entre a patologia e as atividades. Sustenta a ausência de provas de que as atividades desempenhadas foram causadoras da ruptura do tendão supra-espinhoso direito. Destaca trechos constantes no laudo pericial ergonômico e insiste que o reclamante cessou suas atividades de pedreiro em 01/11/2011, e, a partir de então, iniciou suas funções de técnico de manutenção predial. Argumenta que, do ponto de vista ergonômico, a função que mais contribuiu para a sintomatologia dos membros superiores era a de pedreiro. Frisa que o trabalhador exerceu a função de técnico pelos últimos 4 anos e concluir que não foram as atividades laborais que desencadearam a ruptura do seu tendão supra-espinhoso. Finalmente, insiste na informação do perito de que a patologia do reclamante tem possibilidade de recuperação, mediante tratamento cirúrgico e repisa que não merece subsistir a condenação imposta. Pretende, assim, a sua absolvição da condenação imposta a título de danos morais e materiais. Por cautela, requer seja minorado o valor arbitrado a título de danos morais, por não atentado a dimensão do dano, sustentando elevado para as circunstâncias do caso concreto. Pretende, também, a exclusão e/ou redução dos valores arbitrados a título de honorários periciais, pois elaborados com base em informações incompletas. Justifica que a perícia não estabelece nexo causal entre a patologia do ombro e a sua atividade. Alude ao teto constante na tabela do provimento conjunto nº 15/2016, deste Tribunal Regional, com alterações dadas pelo provimento conjunto nº 01/2017. Busca a reforma da decisão.

O reclamante, para a reforma da sentença, alude às conclusões das perícias médica e ergonômica. Volta-se contra a aplicação da redução no percentual 80% da responsabilidade da reclamada, pelo fato de ter confessado que fazia uns bicos. Fala que a redução é absurda, excessiva e prejudicial, além de benéfica à empresa. Destaca que trabalhou por quase 6 anos ininterruptos para a reclamada e salienta que o trabalho fora do contrato era muito eventual. Enfatiza que houve o reconhecimento do nexo causal entre a atividade e a doença, bem como, a confirmação de que as atividades eram ergonomicamente inadequadas. Sustenta desproporcional atribuir aos "bicos" 80% da responsabilidade pela sua doença. Requer a reforma da sentença, com modificação do percentual da pensão mensal vitalícia e insiste que a ré deve ser responsável pela totalidade da redução da sua capacidade laborativa. Por cautela, busca a reforma da sentença para aumentar o percentual de responsabilidade da empresa. Defende que foi dispensado doente, sugerindo que não estava apto no momento da dispensa. Busca a reforma da decisão também quanto ao valor da condenação ao dano moral, querendo a majoração. Fala que o valor é ínfimo diante da extensão do dano, desproporcional quanto à capacidade financeira da empresa e em relação ao prejuízo que o dano causou na sua vida. Ressalta as dores sofridas, a violação à sua integridade física e a incapacidade causada. Repisa ser trabalhador dependente de atividade braçal e aduz que os reflexos das limitação em sua vida beiram a totalidade. Requer a reforma da sentença para majorar o valor arbitrado a título de danos morais.

Examino.

Trata-se de contrato de trabalho executado pelo período de 26/01/2010 a 28/11/2015, sendo o reclamante admitido para o desempenho da função de pedreiro, tal como consta na anotação da sua CTPS, cópia Id 2108ea6 - Pág. 2. A informação constante da Carta de Comunicação de Decisão do órgão previdenciário (Id ebece1a - Pág. 1) indica que o reclamante usufruiu de benefício do INSS pelo período de 20/10/2016 a 15/12/2016.

a) Dever de indenizar

Na petição inicial, (Id 6119663) o reclamante conta que no desempenho de suas tarefas, que demandavam grande esforço físico e posições de trabalho incômodas, ficou com problemas nos membros superiores (ombro e cotovelo).

Na defesa (Id 9185d6b), a reclamada refutou a ocorrência de doença provocada pelo trabalho nela realizado. Sustentou que sempre monitorou o local de trabalho, a fim de evitar os prejuízos à saúde de seus trabalhadores. Diz que forneceu e fiscalizou equipamentos de proteção e que sujeitou o reclamante a periódicos exames médicos, todos sem constatação de problemas de saúde.

A melhor descrição do conteúdo ocupacional do reclamante encontra-se no laudo pericial ergonômico, realizado pelo médico Dr. Leonardo Radunz Vieira (laudo, Id 3bfeb57) que, no aspecto, descreve (item 3.3, Id 3bfeb57 - Pág. 5):

Suas atividades consistiam em:

Como pedreiro erguia paredes com blocos de aproximadamente 18kg., realizava escavação e concretagem de tanque coletor de tratamento de óleo, nivelamento e encanamento das valas em pisos, realizava concretagem da base de caixas de água e arremates em estruturas prediais com auxilio de terceiros. Como técnico de manutenção predial realizava colocação de portas de madeira, realizava atividades hidráulicas como troca de encanamento, pias e vasos. Realizava pinturas e texturas em paredes, realizava atividades elétricas com troca de lâmpadas e reatores.

Realizava limpeza de vidros com água e detergente líquido. Realizava a preparação dos mourões das cercas, colocação de brita no pátio. Fazia uso de equipamentos como serra circular e furadeiras. Realizava troca das pedras no piso do estacionamento e também o lixamento destas quando manchadas com graxa dos veículos. Realizava eventualmente carga e descarga de materiais de construção como porcelanato em caixas de 32kg. com auxilio de terceiros.

A fim de aclarar a situação física do trabalhador, foi designada a realização de perícia médica no presente feito, do que resultou o laudo de Id 8cd613f, confeccionado pelo médico especialista em medicina do trabalho Dr. João Alberto Maeso Montes.

O expert sinalou que o reclamante realizava serviços de pedreiro em manutenção predial (resposta ao quesito nº 2, Id 8cd613f - Pág. 6), contando com 61 anos de idade (nascido em 20/01/1955), tendo sustentado (item 4, Id 8cd613f - Pág. 2) como "queixa principal dor no membro superior direito".

Conta o perito, segundo relato do reclamante, que (item 4, Id 8cd613f - Pág. 3):

Trabalhava no horário das 8:00h/17:48h, tendo por atribuições fazer serviços de manutenção predial: alvenaria, reboco, pintura, luz elétrica, etc.

Relata que, em 2012, iniciou com dor no membro superior direito, que aumentou progressivamente. Procurou atendimento médico e foram solicitados exames de imagem. Referiu também problema dermatológico em antebraço direito.

Também relata que apresentou duas hérnias inguinais e uma hérnia umbilical, sendo submetido a cirurgia no Hospital Nossa Senhora da Graças.

Informa o reclamante que é casado, oito filhos; nasceu de parto normal; 2º grau; usa lentes; tem diabetes; nega tabagismo, ingesta de álcool, fraturas, uso de medicamentos; entrou em benefício previdenciário B31 por 30 dias; tem CNH (Carteira Nacional de Habilitação) cat. AB, renovada em 15.12.2015; não prestou serviço militar; lado dominante - direito.

Salientou o expert que o reclamante "não soube informar outros empregos" e após minuciosos exame da prova documental (exames e atestados médicos) presentes nos autos, teceu considerações no sentido de que (item 7, Id 8cd613f - Págs. 5-6):

7 - CONSIDERAÇÕES MÉDICAS

Do ponto de vista médico, somos de opinião que o reclamante apresenta, no atual exame médico pericial, quadro de ruptura do tendão supra-espinhoso direito.

De acordo com a Tabela do DPVAT (Medida Provisória 451, de 15.12.2008; anexo da Lei 11.945, de 04.06.2009), a perda completa da mobilidade de um dos ombros corresponde a um índice de 25%, sendo o reclamante considerado como inapto para o trabalho.

E concluiu que (item 8, Id 8cd613f - Pág. 6):

8 - CONCLUSÃO

De conformidade com o exposto no presente laudo médico pericial, concluímos que:

* O reclamante apresenta, no atual exame médico pericial, quadro de ruptura do tendão supra-espinhoso direito.

* É considerado inapto para o trabalho.

* Há relação de nexo técnico entre o quadro clínico atual e seu trabalho.

* O índice de perda, de conformidade com a Tabela do DPVAT, é de 25% (vinte e cinco por cento).

Logo, o perito médico não deixou qualquer dúvidas do ponto de vista técnico, de contar o autor com quadro de tendinopatia no ombro direito, tendo apresentado ruptura do tendão supra-espinhoso direito, destacando o nexo técnico entre o trabalho e seu quadro clínico.

Adiciona-se que, como visto, houve designação de perícia ergonômica nos autos (laudo, Id 3bfeb57), tendo o perito concluindo que (item 7, Id 3bfeb57 - Pág. 17):

Sob o ponto de vista da Ergonomia e da Norma Regulamentadora NR-17 indica-se que foram observadas condições de trabalho desfavoráveis que possam ser consideradas relevantes para o caso em tela.

As atividades realizadas pela Reclamante possuem características ergonômicas capazes de gerar manifestações alegadas em membros superiores.

As conclusões dos laudos periciais não foram infirmadas por nenhum dos argumentos das partes existentes nos autos, relevando-se salientar que sequer há elementos de prova em sentido contrário. Portanto, reconheço o nexo de causalidade entre o labor realizado junto à reclamada e a patologia que acometeu o reclamante, qual seja, tendinopatia (ruptura) do tendão supra-espinhoso do ombro direito.

Além disso, frente aos achados periciais e documentais, não é outra a conclusão senão de que a reclamada agiu com culpa pelos danos havidos, por ser omissa quanto a medidas preventivas eficazes à manutenção da saúde e da integridade física do reclamante, a teor do que determinam o artigo 157 da CLT e o artigo 19, § 1º, da Lei nº 8.213/91, em relação à patologia no ombro - dado o nítido risco gerado pelas características ergonômicas inadequadas. A inobservância, pelo empregador, de preceitos básicos constantes na legislação no que diz respeito à saúde e segurança do trabalho é o que basta para a caracterização da sua culpa, na forma do que a doutrina e a jurisprudência denominam "culpa contra a legalidade".

Presentes, portanto, os elementos da responsabilidade civil subjetiva - o dano, o nexo causal e a culpa, sob a ótica do disposto nos artigos 186 e 927, ambos do Código Civil -, surge o dever de indenizar da reclamada.

A responsabilidade da reclamada fica, entretanto, mitigada. Isso porque, tal qual fundamentou a Magistrada da origem, não restam dúvidas de que o reclamante omitiu dados importantes para a precisa elaboração do laudo pericial. Consta no laudo que o reclamante "não soube informar outros empregos", embora a sua CTPS (cópia, Id ce67aef) indique em 1973 o reclamante iniciou atividade laboral como servente e que a partir de 1976 desempenhou tarefas de pedreiro, em continuados contratos de trabalho. O depoimento pessoal do trabalhador (ata de audiência, Id bef6bd8 - Pág. 1) também deixa ver que durante o período de execução de contrato de trabalho, ele tinha ocupações paralelas (bicos) na mesma função.

Ademais, o exame de ecografia do ombro (Id bcb5214 - Pág. 2) deixa ver que em 03/12/2015 o reclamante contava com ruptura parcial do tendão do supraespinhal direito e a conclusão é de que a patologia se agravou mesmo após afastado de suas atividades laborais na empresa [afastamento das atividades laborais na empresa em 27/11/2015 (TRCT, Id a915513 - Pág. 1)], pois o perito médico concluiu haver ruptura total do tendão supra-espinhoso direito (leia-se o laudo pericial, item 7, Id 8cd613f - Págs. 5-6), fato, ainda, retratado no exame de ressonância magnética do ombro direito realizado em 10/10/2016 (Id 32738ef - Pág. 2).

Assim concluo que houve contribuição parcial das atividades profissionais do reclamante executadas na reclamada para a gênese/agravamento da ruptura do tendão supra-espinhoso, ou seja, concausa. Além das atividades prestadas para a reclamada, existem os componentes intrínsecos e pessoais, a idade avançada do trabalhador e as tarefas prestadas para outros tomadores, como fatores contributivos do desencadeamento/acentuação da patologia. Nesta senda, as atividades profissionais na empresa ré podem ser responsabilizadas, como contribuição para o desenvolvimento da moléstia, em apenas 20%. O percentual restante - à evidência - está ligado a genética e propensão pessoal, além de idiopatia e outros labores.

Nesse sentido, são - também - as conclusões da Julgadora do origem, cujos fundamentos reproduzo e prestigio, adotando, ainda, como razões de decidir (Id 4fbf105 - Pág. 4):

Portanto, não há dúvidas que os laudos elaborados pelos profissionais designados pelo Juízo, especialmente o laudo médico, foram elaborados com base em informações incompletas, sonegadas pelo reclamante.

Nesse quadro, reconheço que as atividades desenvolvidas na reclamada apenas contribuíram para o agravamento da patologia que acomete o reclamante, de modo que, na condição de concausa, já que o reclamante desempenhou funções semelhantes à desempenhada reclamada ao longo de toda sua vida profissional, arbitro que a responsabilidade da reclamada é limitada a 20% do total da redução da capacidade laboral identificada.

Assim, do total identificado (25%), 5% da redução apurada são de responsabilidade da reclamada (25% x 20% = 5%).

Além disso, ainda que ao tempo da inspeção médica o reclamante estivesse incapacitado para o trabalho, não é possível concluir que ao tempo da dispensa também estivesse.

Pelo contrário, tendo em vista que o exame demissional realizado (Id b714269) atestou que o reclamante estava apto para o trabalho quando da ruptura do contrato. O parecer está firmado por profissional habitado e não há elementos, nos autos, que permitam concluir de forma diversa.

Ainda, conforme destacado, há elementos consistentes a sugerir que o reclamante permaneceu laborando, fora da reclamada, após o encerramento do vínculo de emprego com esta.

Mais, conforme informa o perito médico, baseado nas informações prestadas pelo reclamante, este renovou sua carteira de motorista (CNH) em 04/12/2015 (Id 8cd613f, p. 3), ou seja, logo após o encerramento do contrato de trabalho com a reclamada, o que denota que o reclamante não estava incapacitado para a realização de atividades que demandassem a utilização dos membros superiores.

Oportuno destacar, também, que à mesma conclusão chegou a Previdência Social, tendo em vista que em dois períodos o reclamante usufruiu o benefício previdenciário sob o código 31, o primeiro de 14/05/2012 a 18/10/2012 e o segundo de 10/10/2016 a 12/12/2016 (Id 82ea057). Como se vê, este último teve início quando já havia transcorrido quase 01 ano da data do rompimento do contrato de trabalho havido entre as partes.

b) Indenização por dano material. Pensionamento

De acordo com o artigo 950 do Código Civil: "Se da ofensa resultar defeito pelo qual o ofendido não possa exercer o seu ofício ou profissão, ou se lhe diminua a capacidade de trabalho, a indenização, além das despesas do tratamento e lucros cessantes até ao fim da convalescença, incluirá pensão correspondente à importância do trabalho para que se inabilitou, ou da depreciação que ele sofreu."

No caso, há notícias de que a doença resulta em incapacidade laborativa do reclamante (laudo médico pericial, item 8, Id 8cd613f - Pág. 6), com índice de perda, de conformidade com a Tabela do DPVAT, fixado em 25% (vinte e cinco por cento), sendo 5% de responsabilidade da reclamada. Bem assim, o perito, no laudo pericial elaborado para o presente feito, datado de 24/08/2016, afirmou (resposta ao quesito nº 9, Id 8cd613f - Pág. 7) que para a melhora do quadro clínico evidenciado faz-se necessário tratamento cirúrgico com a possibilidade de completa recuperação. Portanto, entende-se que a incapacidade é temporária.

Nesses termos, entendo bem posta a decisão de 1º grau que deferiu o pagamento de indenização substitutiva da pensão mensal vitalícia, fixando-a em R$ 15.000,00.

Prestigio os bem lançados fundamentos da Magistrada do 1º grau, até porque não infirmados por quaisquer dos argumentos constantes nas razões recursais para a reforma da sentença, transcrevendo-os e adotando-os, também, como razões de decidir (Id 4fbf105 - Págs. 5-6):

B) Danos materiais.

Havendo redução da capacidade laborativa, a reclamada deve ser condenada ao pagamento de pensão mensal, devida ao reclamante a partir da data do ajuizamento da ação (05/05/2016).

A pensão deverá corresponder ao percentual reconhecido da redução da capacidade por culpa da reclamada (5%) sobre a remuneração percebida pelo reclamante à data da despedida.

Ante a extensão do valor pecuniário que representa a presente indenização e com o fim de viabilizar o proveito financeiro do respectivo ressarcimento, converto o pensionamento em pagamento em parcela única, nos termos do art. 950, parágrafo único, do Código Civil.

Não vislumbro prejuízo à reclamada, pois o pagamento da indenização em parcela única dispensa a constituição de capital para garantir o pagamento da pensão vitalícia, além de a conversão ensejar a aplicação de um redutor do valor do pensionamento.

Considero, portanto, que nos casos em que a indenização é deferida em parcela única o valor alcançado não deve contemplar 100% da indenização que seria devida no período integral de pensionamento, pois haverá, no caso, a antecipação de receita, o que atende o interesse do credor.

Nesse sentido ponderou o Desembargador Wilson Carvalho Dias no acórdão do Proc. 0037100-48.2009.5.04.0030, julgado em 21.10.2010:

(...)

Assim, aplicando o redutor de aproximadamente 20%, fixo o valor da indenização substitutiva da pensão mensal vitalícia em R$ 15.000,00.

Apenas respondendo às razões recursais da reclamada, destaco que o perito (vide laudo pericial) confirma que o reclamante laborava com o emprego dos membros superiores, tudo constatado a partir da descrição das atividades desempenhadas pela parte autora, bem como através da análise do tipo de atividade laboral desempenhada, a qual é compatível com o quadro clínico apresentado, sendo que certo que existe nexo técnico entre a patologia e o trabalho, CID - 10 e M 75 (resposta dada ao quesito nº 4, Id 8cd613f - Pág. 6).

c) Indenização por dano moral

Comprovada a lesão com causa ligada ao labor desempenhado, a existência de efeitos negativos na órbita subjetiva do trabalhador é presumida, sendo despicienda a prova do dano de natureza moral, que decorre do próprio fato lesivo à integridade da vítima, caracterizando dano in re ipsa. Portanto, faz jus o reclamante a uma indenização por dano moral.

No que tange ao quantum devido a tal título, deve-se, para alcançar a finalidade de amenizar o prejuízo causado e desestimular novas práticas lesivas, levar em conta a extensão da repercussão do agravo na vida privada e social do trabalhador, a intensidade do ânimo em ofender do agente (dolo ou culpa), além da condição econômica do ofensor, e a pessoa e condição particular do ofendido.

Desse modo, apreciadas as circunstâncias que evidenciaram a caracterização do dano moral à luz de tais critérios, e, especialmente, observada a causa, a extensão do dano e o reconhecido porte da empresa, reputo adequada e razoável a indenização fixada na origem no montante de R$ 5.000,00, valor esse que atenta para o intuito punitivo e pedagógico da indenização em tela sem ensejar o enriquecimento sem causa da parte lesada.

d) Honorários periciais

Mantenho o valor arbitrado aos honorários periciais (R$ 1.200,00 para cada um dos peritos) porque consentâneo com o trabalho realizado e com os valores normalmente adotados nesta Justiça Especializada.

e) Conclusão

Nego provimento aos recursos ordinários do reclamante e da reclamada.

Assinatura

LAIS HELENA JAEGER NICOTTI

Relator

VOTOS

PARTICIPARAM DO JULGAMENTO:

DESEMBARGADORA LAÍS HELENA JAEGER NICOTTI (RELATORA)

DESEMBARGADOR FABIANO HOLZ BESERRA

JUÍZA CONVOCADA MARIA SILVANA ROTTA TEDESCO

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